
Nasci bem pequenino do tamanho de um bebê de 9 meses e cheio de ilusões. Coisa que não mudou muito até agora pois tenho muita ilusão, mas bem sou um iludido. A minha tribo morava lá no interior de São Paulo, numa cidade chamada Assis. Lugar quente e chato pois só tem peão, boi, moto e soja.Um monte de coisa que pode cheirar dinheiro mas na verdade o dinheiro é que cheira a outra coisa, como a bosta de vaca ou um tipo de farinha especial para levantar os animos da peãozada.Ali aguentei quase 20 anos da minha curta vida. Digo curta pois a cada dia vejo como se estreita o funil da inocência e o tempo parece passar muito mais rápido do que eu gostaria. E foram muitos anos entre brincar de índio e fazer palhaçadas com os amiguinhos da escola, lugar onde aprendíamos de tudo menos o que nos ensinavam. Coisas da pedagogia que só Gilberto Freire explica. Mas guardo até hoje a lembrança daqueles tempos ingênuos e livres, sem medo de problemas futuros ou de fantasmas presentes. O negócio era brincar na enchorrada que produziam cachoeiras no meio da rua, depois de uma chuva de verão daquelas de lavar a alma. Roubar frutas no quintal alheio, amansar cavalo bravo no pasto do vizinho, nadar no açude de água barrenta, pular do cipó no rio e pegar mel com a mão sem medo do enxame. Isso sim era vida e saudável como nada. Todo o dia comendo frutas silvestres, correndo atráz de passarinho, pulando cerca pra fugir do tiro de sal, correndo de boi bravo no pasto e principalmente brincando de pique até a noitinha cair, quando meu pai vinha me buscar, já com cara de preocupado. Aquilo era a gloria. De manhã escola, coisa séria que a gente tomava na brincadeira e pela tarde, brincadeira que a gente levava muito a sério. Entre o verde do bosque e o marrom do barro, o azul do céu e o negro das noites mal iluminadasdo, assim passaram-se os meus melhores anos. Quando tudo era só alegria. O campinho de futebol cheio de tocos e gravetos que nós arrancávamos com o dedão do pé nos chutes mal feitos, estava atráz da casa dos irmãos Leandro. Gente simples de origem italiana, quer dizer, falavam alto e gesticulavam muito pra dizer nada. As vezes passávamos lá na casa deles antes da pelada, pra roubar umas mangas no quintal do vizinho e logo chupar nos intervalos do jogo, que era sempre muito competitivo e havia varios times formados na hora. Eu nunca gostei de jogar no gol porque sempre levava bolada na cara quando tentava defender os penaltis com a ousadia de um bom goleiro, mas as vezes não tinha outra solução, quem mandava era a maioria e não tinha dúvida:- voce vai jogar no gol porque o time necessita de um e ninguém quer. Como eu sempre fui dos piores na linha, acabava aceitando, mas pocas vezes por sorte minha.A vida passava tranquila com o meu pai trabalhando na escola como zelador e a minha mãe ainda terminando a faculdade pra logo se tornar professora de química. Uma gloria pois ela fez praticamente todos os seus estudos depois de casada, com o apoio e a paciência do meu pai, que muitas vezes ficava comigo vendo televisão até que eu dormisse e ele então me levava pra cama nos braços, depois de um copo de leite quente com chocolate.
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